Quem não se comunica, se trumbica

0
21

O companheiro Lula costuma dizer que essencial da política é conversar, conversar e conversar, e este raciocínio nos dá uma dimensão do quanto erramos ao longo dos últimos anos ao interrompermos um ciclo de diálogos, encontros e formações que representaram muito na história de construção do PT nos seus dez primeiros anos de fundação.

Nosso partido nasceu da luta concreta e da resistência dos ditames dos governos autoritários que perduraram durante os vinte anos de obscurantismos, violência e negação de direitos na sociedade brasileira. O PT foi durante esses 36 anos um símbolo de dignidade e ousadia na luta pela construção de uma sociedade democrática e com qualidade de vida para maioria de seu povo mais pobre.

Como dizia Henfil “ vendo uma estrela”, essa marca do PT foi um dos produtos mais bem avaliados na política brasileira durantes vários anos.

Frei Beto, em um de seus artigos que refletia a derrota de Lula em 1989, afirmava que “nem só de pão viverá o homem” mas os homens também tem fome de beleza, de justiça, de igualdade e de novas utopias.

Ninguém tem dúvidas que os avanços significativos dos governos do PT, com Lula e Dilma, conseguiram conquistas e ganhos reais para milhões de trabalhadores e trabalhadoras que durante anos viveram excluídos e marginalizados, expostos a cruéis estatísticas de fome e violência em todos os recantos deste grande país.

Nossos governos investiram no conjunto da infraestrutura do Estado, na qualidade do serviço público, na geração de trabalho e emprego, na produção de tecnologia, no fortalecimento da indústria nacional, na defesa estratégica do país e na inserção soberana do Brasil no mundo. Afinal de contas chegamos a ser, em 2010, a sétima maior economia do mundo.

Entre os maiores feitos de nossos governos, além dos programas sociais e do PAC, estão o fortalecimento da Petrobrás, o descobrimento das reservas de pré-sal e as tecnologias de exploração e a reconstrução do parque industrial de fabricação de plataformas e navios de grande porte, valorizando, deste modo, nossas tecnologias e afirmando as indústrias nacionais como protagonistas de engenharias competitivas.

Para nós fica claro que entre os vários motivos da crise atual e dos golpes sucessivos que vem derrotando o Estado Democrático de direito, estão os interesses do grande capital financeiro internacional e suas corporações privadas e as sucessivas derrotas que a direita brasileira e seus partidos conservadores tiveram durante quatro eleições consecutivas.

Este artigo tem por objetivo principal trazer à luz da reflexão alguns aspectos dos erros que cometemos nos 13 anos de governo.

O PT, nos governos Lula e Dilma, não conseguiu acompanhar as grandes transformações do capitalismo mundial ocorridas neste início de século XXI. Muitos economistas e outros intelectuais falam sobre a transformação do capital industrial em capital financeiro (rentismo); fato que implica diretamente no enriquecimento cada vez maior de um pequeno número de corporações e indivíduos detentores de trilhões de dólares que controlam a economia mundial. Este capital, entretanto, não é produtivo, no máximo financia alguns setores produtivos; contudo controla os juros altos das economias subdesenvolvidas, fazendo aumentar as dívidas desses países e controlando cada vez mais o empoderamento das empresas transnacionais e o controle colonialista nas relações geopolíticas com os países imperialistas.

Estas grandes transformações do capitalismo vieram acompanhadas com a Segunda Revolução Tecnológica, ocasionando a rápida aceleração da comunicação através da rede mundial de computadores, a informação na internet e nas redes sociais e o controle absoluto destas informações sob o domínio dos Estados Unidos e do Japão.

Portanto, a Revolução Tecnoindustrial, para além da internet, substitui ainda a força do trabalho humano pela produção intelectual e pelo uso da comunicação de códigos matemáticos que alimenta a inteligência artificial, a robótica, a pesquisa cientifica, a bio e da nanotecnologia. Vivemos a era dos chips e bits.

Cito rapidamente este complexo debate apenas para fazer uma crítica a nós do PT por não termos acompanhados cientificamente a consolidação destas revoluções. Podemos até querer justificar que tínhamos muitas coisas para resolver nos labirintos da gestão do governo federal e toda a engenharia de relações com os setores produtivos e o capital financeiro do Brasil e do mundo. Porém não vamos conseguir explicar nossas falhas cotidianas de comunicação e informação nas relações entre o partido e governo, entre o governo e a sociedade e a necessidade basilar de fazer as reformas no marco regulatório da internet, na lei da democratização dos meios de comunicação e até mesmo na implementação de ferramentas e conteúdo de comunicação que possibilitassem um diálogo permanente do nosso projeto político com os usuários destas políticas.

As direitas com suas estruturas de dominação, com assessoria e financiamento de   intelectuais e do capital financeiro conseguiram manipular a burocracia estatal, eleger maioria conservadora de deputados e senadores e atualizar, de forma inteligente, os meios de comunicação monopolizados e utilizar, com muita competência, as redes sociais na internet. Enquanto nós estávamos nas hastag, eles irradiavam mentiras criminalizando o PT e suas lideranças.

A lógica dos conservadores é a mesma do Estado autocrático nazista: uma mentira dita muitas vezes de forma competente acaba virando verdade. Eles construíram uma narrativa de fatos que nos incriminaram, e nós ficamos perplexos.

O PT não se comunicou, o governo não se comunicou e o povo se trumbicou. O golpe foi dado, o país continua em crise e a direita continua dizendo que o PT é o grande culpado. E nós, continuamos sem dá resposta e muito menos de mobilizar as grandes massas que foram beneficiadas por nossos programas sociais durante os 13 anos de desenvolvimento com qualidade de vida. O povo continua “hipnotizado” e controlado pelo amplo poder ilusionista da Globo, da grande imprensa e das redes sociais conservadoras.

Compartilhar
Artigo anteriorA atualidade brutal de Hannah Arendt
Próximo artigoPoder, política e Governo!
Ex-deputado estadual e presidente do Partido dos Trabalhadores no Estado do Pará. Pretende opinar sobre conjuntura política, econômica, meio ambiente e outros acontecimentos. Sempre com uma visão crítica.

Sem comentários